Vivemos a agricultura da especialização, onde não há escolha: ou o produtor se especializa ou não se mantém. A sentença é dada pelo professor Ariovaldo de Oliveira, da Universidade de São Paulo.
Titular em geografia agrária, Oliveira diz que a agricultura brasileira pode ser dividida hoje em dois setores: o empresarial, que envolve grandes produções como grãos e cana de açúcar e o da agricultura familiar, do pequeno produtor, que está caminhando pra especialização. O caminho, segundo ele, é necessário e quase obrigatório.
“Na agricultura capitalista, não há outra possibilidade que não seja a agricultura de especialização”, diz Oliveira.
O caminho da especialização foi feito pelo suinocultor e empresário rural Antonio Ianni. Ele tem uma granja, no interior de São Paulo, com mais de 20 mil suínos e 100 colaboradores. Quando começou, tinha pouco mais de mil animais e quatro funcionários. Ianni conseguiu desenvolver a atividade, tradicional da família, e a mantém hoje por causa da sua visão de negócios, bem de acordo com a definição de empreendedor.
“O empreendedor rural não pode ser um especulador momentâneo. Ele é uma pessoa que se dispõe a atuar em uma atividade específica do agronegócio e faz os investimentos necessários e possíveis, além de manter o negócio sempre bem focado, bem administrado e bem organizado”, explica o suinocultor.
A capacidade de adaptação ao mercado e às mudanças econômicas do país é uma característica do empreendedor rural. Na década de 90, havia na região de Itu, no interior de SP, cerca de 30 a 35 suinocultores. Atualmente, são só três. Um dos cilos traz a ração diretamente para as baias dos animaizinhos. É o que há de mais moderno em termos de alimentação de suínos no Brasil.
O sistema ajuda a reduzir custos e melhora a chamada conversão alimentar. Em outras palavras, o animal aproveita toda a ração. Não há desperdício. O investimento foi feito também nos bebedouros, no teto, que auxilia no controle de temperatura e no piso, por questões sanitárias.
“Temos sempre que buscar tecnologia, genética, nutrição e conhecimento através de treinamento de pessoal. Enfim, a atividade suinícola não é uma criação apenas. É um negócio que tem todas as sequências de atividades como uma indústria” diz Antonio Ianni.
O suinocultor também é médico veterinário. Porém, não foi a formação acadêmica que deu a ele a visão e a iniciativa de empreendedor. A formação ajuda, diz Ariovaldo de Oliveira, mas não garante o sucesso. A informação é sim uma ferramenta importante para o empreendedor rural e é muito mais acessível atualmente do que há 20 ou 30 anos.
“No Brasil, é bom que se diga, da década de 70 para cá se investiu fortemente na assistência técnica. O país hoje tem uma assistência técnica rural de alto nível de qualidade. Através dessa assistência técnica, o conhecimento chega a esse agricultor, que às vezes não tem ainda um nível de escolaridade alto”, explica o professor da USP.
A sucessão em um empreendimento rural é um indicativo de que o negócio está dando certo. Antonio Ianni já está preparando esta transição. Ele tem duas filhas estudando e interessadas na atividade. Elas estão comprometidas com as mudanças, como era de se prever.
“Quando o empreendimento na agricultura é mantido pela família, a tendência é que a mudança venha com as gerações. Então, é sempre a próxima geração que vai trazer mais tecnologia”, diz Oliveira.
“Todo o investimento que eu fiz durante todo esse tempo não posso jogar fora e não vale nada para outra pessoa. Vale para mim, que sou suinocultor. Então, preciso fazer o negócio dar certo. Tem que dar certo e vai dar certo sempre”, completa Ianni.
Fonte: Canal Rural (acessado em 25/02/10)