O Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP) realizou o IV Encontro Estadual de Coordenadores de Curso de Medicina Veterinária, reunindo gestores, docentes e especialistas em educação de diversas Instituições de Ensino Superior (IES). O evento promoveu debates sobre o cenário atual e a qualidade do ensino, Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN), formação por competências e os impactos das transformações tecnológicas e do mercado de trabalho na educação veterinária.
A abertura foi conduzida pela Comissão Técnica de Educação do CRMV-SP, mediada por sua presidente, Maria Lucia Zaidan Dagli, que destacou a relevância do encontro como espaço de articulação entre universidades e o Sistema CFMV/CRMVs. “O evento foi planejado para promover reflexões estratégicas sobre a educação veterinária, reunindo palestras e mesa-redonda que abordam desde as atualizações do Conselho Federal até a implementação das DCNs, a curricularização da extensão, as competências do ‘Dia 1’ e o uso da inteligência artificial no ensino”, destacou, acrescentando que os debates contribuem diretamente para o aprimoramento da formação dos futuros médicos-veterinários no estado de São Paulo.
A presidente do Regional, Daniela Pontes Chiebao, também participou da abertura, reforçando o papel do Conselho na formação acadêmica e ética dos estudantes. Ela agradeceu a presença de todos no evento e destacou que a autarquia tem ampliado a aproximação com as instituições de ensino. “Temos intensificado o diálogo com as IES, por meio da divulgação de editais e da realização de visitas técnicas. Elaboramos um edital abrangente de apoio institucional para contemplar diferentes tipos de eventos e evitar a perda de prazos”, afirmou.
Daniela também chamou atenção para a importância da formação ética e 100% presencial durante a graduação. “Quando estamos estudando, muitas vezes nem sabemos que certas situações podem ocorrer na atuação profissional, nem os problemas que podem surgir. Por isso, a apresentação de modelos de júri ético contribui para uma formação mais consciente e responsável”, disse.
Acreditação e os impactos na formação
A presidente da Comissão Nacional de Educação em Medicina Veterinária do CFMV, Maria Clorinda Soares Fioravanti, abriu a programação técnica apresentando as atualizações do grupo e alertando para o crescimento acelerado dos cursos de Medicina Veterinária no País, especialmente na modalidade semipresencial, e seus impactos na qualidade da formação.
Segundo ela, “o crescimento acelerado, especialmente em cursos semipresenciais, aprofunda um cenário já preocupante e impõe grandes desafios à formação profissional”, destacando que a Comissão atua para subsidiar tecnicamente as instâncias políticas do Sistema CFMV/CRMVs.
A médica-veterinária também apresentou iniciativas em andamento, como a revisão do instrumento de acreditação, a elaboração de diretrizes para coordenadores de curso, a criação de um painel nacional de dados educacionais e o fortalecimento das avaliações técnicas. “A acreditação é utilizada no mundo inteiro como uma forma de atestar a qualidade dos cursos, indo além das avaliações governamentais, lembrando que cursos semipresenciais não são passíveis de acreditação”, enfatiza.
Saúde mental para lidar com adversidades
Na sequência, a médica-veterinária e psicóloga Ingrid Bueno Atayde Machado abordou o tema “Saúde mental como parte da formação acadêmica”, discutindo como o modelo de ensino e as condições de trabalho afetam estudantes e profissionais.
Ingrid destacou que os docentes não são livres para escolher o mercado de trabalho em que os alunos vão atuar, entretanto, afirma: “somos livres para prepará-los para serem mais críticos, conscientes e capazes de lidar com as adversidades”, defendendo que a saúde mental seja tratada como eixo estruturante da formação.
A psicóloga alerta, ainda, sobre a precarização do trabalho, o estresse ocupacional e a perda de sentido na prática profissional. “Não podemos naturalizar o sofrimento como se ele fosse parte obrigatória da profissão. Precisamos de ambientes educacionais que promovam autonomia, pertencimento e desenvolvimento humano”, alerta Ingrid.
Diretrizes curriculares e seus desafios
O professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Rafael Gianela Mondadori, discutiu as DCNs e os desafios das instituições diante das mudanças do mundo do trabalho. Segundo ele, os cursos devem formar profissionais capazes de analisar, decidir, aplicar conhecimentos e se adaptar a cenários complexos.
Mondadori enfatizou que o maior desafio não está nas diretrizes em si, mas na execução efetiva dos projetos pedagógicos. “Não há mais espaço no mercado para quem não faz nem uma coisa nem outra bem-feita”, ressaltou.
IA no ensino
Outro ponto de destaque da programação foi a palestra sobre Inteligência Artificial (IA) no ensino, ministrada por Mario Augusto Ferrari de Castro, médico especializado em Educação. Ele apresentou possibilidades de uso da IA como ferramenta de apoio ao processo de ensino-aprendizagem.
Segundo o palestrante, “a grande virada foi quando a máquina aprendeu a nossa língua”, explicando que a tecnologia permite criar materiais didáticos personalizados, como textos, vídeos, podcasts e avaliações. “Hoje, a educação não é mais sobre ter respostas prontas, mas sobre saber fazer as perguntas certas”, disse.
Laboratório de habilidades e competências do Dia 1
O médico-veterinário Antonio Chaves de Assis Neto deu sequência à programação abordando o tema “Laboratório de Habilidades para o Ensino da Medicina Veterinária” e destacando a simulação como estratégia essencial para desenvolver raciocínio clínico, tomada de decisão e comunicação. “O laboratório de habilidades muda completamente a relação do aluno com o aprendizado, porque ele passa a praticar, errar e decidir em um ambiente seguro, além de possibilitar avaliações objetivas alinhadas às DCNs e à acreditação”.
Na palestra final, a médica-veterinária Cristina de Oliveira Massoco Salles Gomes tratou das “Competências do Dia 1”, enfatizando sua importância para harmonizar a formação em âmbito nacional e internacional. Cristina observou que “as competências do Dia 1 surgem como resposta à heterogeneidade dos currículos e aos riscos sanitários globais”, reforçando a necessidade de uma formação generalista e alinhada ao conceito de Uma Só Saúde.
O ciclo foi concluído com uma mesa-redonda mediada por Rogério Amorim, com participação dos professores Marcos Neira, Karina Paes Burger e Aline Zoppa, que discutiram a curricularização da extensão, experiências institucionais e o papel estratégico dos coordenadores na implementação das diretrizes e na consolidação de uma formação baseada em competências.