No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, médicas-veterinárias e zootecnistas evidenciam um protagonismo que ultrapassa a representatividade simbólica. Elas lideram pesquisas, constroem pontes entre ciência e campo, ocupam espaços estratégicos de decisão e impulsionam mudanças institucionais que impactam toda a categoria. Em paralelo, o Sistema CFMV/CRMVs avança com políticas voltadas à equidade de gênero e promoção da saúde mental, reconhecendo desafios históricos enfrentados pelas profissionais.
É nesse contexto que histórias como a da zootecnista Amanda de Carvalho ganham destaque, não apenas pela produção científica, mas pela capacidade de dialogar com novas gerações e ampliar a compreensão sobre o papel estratégico da profissão.
Ela relata que, ao longo da graduação, foi inspirada por professoras que conciliavam excelência técnica e vida pessoal, e que essas referências femininas redefiniram sua visão de futuro. “Ver mulheres ocupando espaços na academia e na produção animal me fez acreditar que eu também poderia construir meu próprio caminho dentro da Zootecnia”, destaca Amanda.
Ao compartilhar conteúdos técnicos nas redes sociais sobre ovinocultura, percebeu a crescente presença feminina na gestão de propriedades e na assistência técnica. Para ela, essa transformação demonstra que a produção animal vive uma mudança consistente, com mulheres assumindo funções estratégicas e decisórias.
Atualmente doutoranda em Qualidade e Produtividade Animal pela Universidade de São Paulo (USP), Amanda defende que a Zootecnia ainda é pouco compreendida pela sociedade. “O trabalho do zootecnista envolve manejo nutricional, sanitário, reprodutivo, bem-estar animal e seleção genética, sempre fundamentado na ciência para garantir eficiência e sustentabilidade. A Zootecnia é estratégica para que a proteína animal chegue ao consumidor com qualidade, segurança e responsabilidade”, explica.
Ao ocupar espaços na pesquisa e na comunicação científica, Amanda entende que também amplia horizontes para outras jovens. Para ela, tornar-se referência é parte de um movimento coletivo que incentiva mais mulheres a acreditarem que podem construir sua trajetória na Zootecnia.
Vocação que nasce do cuidado
Outra trajetória que evidencia a presença feminina na área é a da médica-veterinária Anna Laura Ferreira. Segundo ela, o desejo de seguir a Medicina Veterinária surgiu ainda na infância, ao crescer cercada pelos próprios animais. “O cuidado diário sempre fez parte da minha rotina e da minha formação como pessoa, experiência que despertou o interesse pela profissão”, disse.
Em determinado momento da vida, Anna Laura chegou a seguir outra carreira, buscando condições que lhe permitissem realizar o sonho de ingressar na área com mais segurança. A decisão, afirma, fez parte de um processo de amadurecimento que acabou reforçando a convicção sobre a escolha pela profissão.
Foi durante experiências práticas com equinos e, especialmente, ao desenvolver uma pesquisa voltada ao bem-estar animal nessa espécie que ela compreendeu de forma mais profunda o papel social da Medicina Veterinária. “A atuação do médico-veterinário vai além do tratamento de doenças e envolve também a prevenção do sofrimento e a promoção da qualidade de vida dos animais, sempre com responsabilidade ética na relação entre humanos e animais”, enfatiza.
Ao refletir sobre os desafios da profissão, Anna Laura avalia que a formação científica precisa estar acompanhada de outras competências. “Em ambiente técnico e exigente, a formação científica é essencial, mas não o suficiente. O pensamento crítico, a responsabilidade ética e a capacidade de tomar decisões com segurança são fundamentais”, acredita.
A comunicação também é apontada como uma habilidade indispensável no exercício profissional. Segundo a médica-veterinária, a atuação exige não apenas precisão técnica, mas também sensibilidade no relacionamento com diferentes públicos. “Saber dialogar, ouvir e sustentar posicionamentos com responsabilidade faz tanta diferença quanto dominar protocolos”.
Para Anna Laura, a presença feminina em espaços de liderança na ciência e na Medicina Veterinária passa também pelo reconhecimento de habilidades que muitas mulheres desenvolvem ao longo da própria trajetória. Ao conciliar múltiplas responsabilidades e enfrentar diferentes jornadas com organização e resiliência, elas demonstram, na prática, competências essenciais para liderar. “A mulher tem, sim, perfil de liderança, e ocupar esses espaços com segurança e competência contribui para que outras também se sintam capazes de trilhar o mesmo caminho.”
CFMV Mulher amplia protagonismo
A valorização feminina também avança no âmbito institucional com o Programa CFMV Mulher. A Comissão Nacional de Valorização da Mulher, presidida pela vice-presidente do CRMV-SP, Carolina Filippos, surge com a missão de propor e articular ações concretas voltadas à equidade de gênero, ao enfrentamento do assédio moral e sexual e à ampliação da presença feminina nos espaços de liderança e tomada de decisão.
Carolina destaca que a atual gestão do Regional paulista, formada majoritariamente por mulheres, já representa uma mudança de paradigma. “A criação da Comissão vem para fortalecer ainda mais a nossa carreira e valorizar o papel da Medicina Veterinária e da Zootecnia. O Programa estrutura ações alinhadas à realidade das profissionais, com foco na melhoria da qualidade de vida, no fortalecimento da liderança feminina e na promoção de ambientes de trabalho mais equitativos e seguros.”
Embora as mulheres sejam maioria entre médicas-veterinárias e zootecnistas no Brasil e representem 68% do efetivo de profissionais da Medicina Veterinária e 40% da Zootecnia no estado de São Paulo, sua presença ainda é proporcionalmente menor em cargos de presidência, diretorias e posições estratégicas nos Conselhos. Nesse contexto, o Programa dá visibilidade a essa realidade e estrutura ações efetivas para transformá-la, consolidando-se como instância estratégica e consultiva voltada à ampliação da liderança feminina no Sistema CFMV/CRMVs.
Saúde mental no centro da agenda
Ao reconhecer que protagonismo e excelência técnica exigem ambientes saudáveis, o CRMV-SP estruturou uma programação anual de promoção da saúde mental integrada ao plano de gestão e um dos objetivos é tratar dos desafios femininos na profissão.
A presidente Daniela Chiebao destaca que falar de saúde mental é assumir um compromisso coletivo e institucional. “Estamos criando espaços permanentes de reflexão, acolhimento e orientação, fortalecendo uma cultura de cuidado que promova reconhecimento profissional e relações de trabalho mais saudáveis”, afirma.
Para 2026, estão previstas ações como conteúdos educativos com supervisão de profissionais da Psicologia, uma seção exclusiva sobre saúde mental no site e o curso “Saúde Mental da Mulher”, voltado a médicas-veterinárias e zootecnistas, com temas como autocuidado, luto, enfrentamento ao machismo, gestão de carreira e maternidade.
Também será realizada a primeira pesquisa acadêmica no Brasil dedicada exclusivamente à saúde mental de zootecnistas, além de podcasts, simpósios e debates sobre burnout, prevenção do suicídio, comunicação de más notícias e estratégias de enfrentamento.
Ao integrar equidade de gênero, valorização profissional e saúde mental em uma mesma agenda estratégica, o Sistema CFMV/CRMVs reforça que o fortalecimento das profissões passa, necessariamente, pelo cuidado com as pessoas que as exercem.