Médicos-veterinários impulsionam avanços no controle da brucelose e da tuberculose animal no Brasil

Pesquisas epidemiológicas, vacinas e novas tecnologias diagnósticas reforçam o papel estratégico desses profissionais na proteção da saúde pública e da produção pecuária
Texto: Comunicação CRMV-SP / Foto: Freepik

A atuação do médico-veterinário tem sido decisiva no avanço das estratégias de controle da brucelose e da tuberculose animal no Brasil, duas zoonoses que impactam diretamente a saúde pública e a produção pecuária. Dados epidemiológicos, melhorias nos programas sanitários e inovações em diagnóstico têm contribuído para reduzir a prevalência dessas doenças, especialmente em estados com forte estrutura de vigilância sanitária, como São Paulo.

Segundo a presidente da Comissão Técnica de Uma Só Saúde, Vera Letticie de Azevedo Ruiz, o médico-veterinário ocupa uma posição estratégica no enfrentamento dessas enfermidades. “Ele atua na interface entre a sanidade animal, a defesa agropecuária, a segurança dos alimentos e a saúde pública, envolvendo desde a execução de testes diagnósticos até a vacinação e a notificação de resultados aos serviços oficiais”, explica.

Essas ações fazem parte do Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose Animal (PNCEBT), política sanitária coordenada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) que estabelece protocolos para diagnóstico, vacinação e monitoramento das doenças. “Tais iniciativas são fundamentais para o saneamento dos rebanhos, a certificação de propriedades livres das doenças e a redução do risco de transmissão aos seres humanos”, afirma Letticie.

No estado de São Paulo, a execução dessas estratégias ocorre por meio do Programa Estadual de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose Animal de São Paulo, conduzido pela Coordenadoria de Defesa Agropecuária.

Dados epidemiológicos

Resultados preliminares do terceiro inquérito epidemiológico da brucelose em bovídeos no Estado apontam redução significativa da doença ao longo das últimas décadas. O estudo foi conduzido com participação do Laboratório de Brucelose do Instituto Biológico.

De acordo com o médico-veterinário pesquisador, Ricardo Spacagna Jordão, foram avaliados mais de 13 mil animais em 1.602 propriedades rurais. “Os soros foram submetidos a um protocolo diagnóstico em série, utilizando o teste do Antígeno Acidificado Tamponado como triagem e o teste de soroaglutinação lenta associado ao 2-mercaptoetanol como confirmatório”, disse, acrescentando que “165 animais foram confirmados como reagentes, distribuídos em 111 propriedades”.

Os dados ainda estão em fase de análise estatística, mas já indicam prevalência aproximada de 1,25% de fêmeas sororreagentes e cerca de 6,9% de propriedades com foco da doença. Ao comparar os resultados com levantamentos anteriores, Jordão observa que os inquéritos realizados em 2001 e 2011 apontaram prevalências de 3,8% e 2,4%, respectivamente, o que sugere uma tendência de redução da brucelose no Estado.

Entre os fatores associados a essa queda está a ampla cobertura vacinal. “A vacinação anual de bezerras com a vacina B19 tem alcançado índices superiores a 80% no Estado, além da utilização da vacina RB51 como alternativa em estratégias de reforço imunológico”, afirma o pesquisador.

Novas tecnologias e precisão

Além do avanço no controle sanitário, a modernização das ferramentas diagnósticas tem ampliado a capacidade de detecção dessas doenças. No caso da tuberculose bovina, o teste tuberculínico intradérmico continua sendo o método oficial utilizado pelo programa nacional. Entretanto, novas tecnologias vêm sendo incorporadas ao diagnóstico complementar.

Jordão explica que “técnicas moleculares como a reação em cadeia da polimerase permitem maior rapidez, sensibilidade e especificidade na detecção do agente etiológico”, embora ainda existam desafios relacionados à baixa carga bacteriana em algumas amostras.

Outras metodologias também têm sido estudadas para ampliar a precisão diagnóstica. “Os testes de liberação de interferon-gama apresentam bom desempenho em animais vivos, embora ainda não estejam aprovados para uso oficial no Brasil, enquanto testes sorológicos do tipo ELISA, Enzyme-Linked Immunosorbent Assay, que em português pode ser traduzido como ensaio imunoenzimático, vêm sendo avaliados como ferramentas complementares”, complementa o pesquisador.

Rapidez no diagnóstico

Para a brucelose, um dos avanços mais relevantes foi a validação do teste de polarização fluorescente (FPA), que passou a integrar o conjunto de exames recomendados pelo PNCEBT. “O método apresenta elevada sensibilidade, alta especificidade e excelente reprodutibilidade interlaboratorial”, diz Jordão, destacando que sua principal vantagem é a rapidez na obtenção dos resultados, que pode ocorrer em poucos minutos.

Paralelamente ao desenvolvimento de novas técnicas, também houve evolução na produção dos reagentes utilizados nos testes oficiais. Melhorias no cultivo bacteriano, nos processos de purificação e nas tecnologias de formulação têm contribuído para maior padronização e confiabilidade dos exames.

No contexto da abordagem de Uma Só Saúde, a atuação do médico-veterinário continua sendo essencial para reduzir riscos sanitários e garantir alimentos seguros. Como ressalta Letticie, o trabalho desses profissionais envolve não apenas a sanidade dos rebanhos, mas também a proteção da população. “A brucelose e tuberculose possuem relevância direta para a saúde pública, e a prevenção inclui orientação aos produtores, adoção de medidas de biossegurança e vigilância constante nas propriedades rurais”, finaliza.

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