O avanço do desmatamento e a perda de habitat natural têm aproximado cada vez mais animais silvestres das populações humanas e, com isso, os riscos de doenças zoonóticas são ampliados. Diante desse cenário, o SISS-Geo, sistema desenvolvido pela Fiocruz, surge como ferramenta estratégica para monitorar a saúde da fauna brasileira, gerar alertas em tempo real e apoiar autoridades na prevenção de surtos que podem afetar tanto animais quanto pessoas.
Segundo a médica-veterinária e presidente da Comissão Técnica de Animais Selvagens e Pets Não Convencionais do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP), Marta Guimarães, deixar de registrar e investigar mortes e adoecimentos de animais silvestres pode trazer consequências graves. “A ação antrópica tem levado ao desmatamento e à perda do habitat natural de diversas espécies. Esse quadro aproxima cada vez mais os animais do homem e, com eles vem também as doenças zoonóticas”, ressalta.
Marta destaca que, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), as zoonoses representam cerca de 60% das doenças infecciosas em humanos, impactando a produção animal, a segurança alimentar, a saúde pública e a economia. “A investigação das doenças e da causa das mortes dos animais de vida livre permite identificar o problema na sua base e determinar ações e políticas públicas rápidas para sanar ou minimizar a situação”, pontua.
Falta de monitoramento pode comprometer saúde pública e ecossistemas
Sem registro e monitoramento sistemático, surtos podem se espalhar silenciosamente, dificultando respostas rápidas das autoridades sanitárias e ambientais. Marta Guimarães explica que ferramentas de vigilância são essenciais, inclusive para doenças com potencial de devastar populações inteiras de animais.
“O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), por exemplo, tem monitorado espécies suspeitas de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP), e o SISS-Geo é uma ferramenta que colabora com esse rastreamento, não apenas de doenças zoonóticas, mas também daquelas que podem dizimar populações e excluí-las do ecossistema ao qual pertencem”, afirma.
Como funciona o SISS-Geo
Desenvolvido pela Plataforma Institucional Biodiversidade e Saúde Silvestre (Pibss) da Fiocruz, com apoio do Laboratório Nacional de Computação Científica, o SISS-Geo é uma ferramenta gratuita que pode ser acessada via smartphone ou web, funcionando inclusive off-line, o que evita a perda de dados em áreas remotas.
O sistema permite que cidadãos e especialistas registrem ocorrências envolvendo animais silvestres em ambientes naturais, rurais ou urbanos, incluindo fotos e informações georreferenciadas. Esses dados são analisados por especialistas que validam os registros, identificam as espécies e garantem a precisão científica das informações. Com base nas ocorrências, o SISS-Geo gera alertas automáticos em tempo real, encaminhados às autoridades responsáveis pela investigação e controle, especialmente em situações com risco de transmissão de doenças para humanos.
Além do monitoramento imediato, os registros alimentam modelos computacionais que utilizam Aprendizado de Máquina (Inteligência Artificial) para identificar áreas com maior risco de zoonoses, como a febre amarela. Esses modelos consideram dados históricos de epizootias e casos humanos confirmados, permitindo previsões mais precisas e apoiando decisões estratégicas das secretarias de saúde estaduais e municipais, como a priorização de áreas críticas e o planejamento de campanhas de vacinação.
Participação da sociedade
A participação da sociedade é fundamental: alertas enviados por cidadãos podem acionar todo o sistema de vigilância do Sistema Única do Saúde (SUS), agilizando a mobilização de equipes de campo, coleta de amostras biológicas e tomada de decisão rápida, com economia de recursos e maior eficiência.
O aplicativo já foi testado e aprimorado com a contribuição de mais de 3 mil pessoas em diferentes regiões do País, incluindo comunidades indígenas, ribeirinhas e caiçaras, agricultores, pescadores, profissionais da saúde e do meio ambiente, professores, estudantes e pesquisadores.
Marta Guimarães reforça a importância do Sistema e da participação da população. “Quanto mais pudermos contribuir com informações sobre nossos animais, maior poderá ser nossa proteção para todos que vivem neste planeta”, conclui.