Site AgriPoint entrevista presidente da Comissão de Zootecnia do CRMV-SP

Em comemoração ao dia do zootecnista, entrevistamos Henrique Luís Tavares, Presidente da Comissão de Zootecnistas do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo, que falou um pouco sobre a Zootecnia, os desafios e oportunidades da profissão.

Henrique Luís Tavares é zootecnista formado pela UFRRJ, natural e residente em São Paulo/SP. Zootecnista da Fundação Parque Zoológico de São Paulo e presidente da Comissão de Zootecnia do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo.

AgriPoint: Qual o principal desafio/problema da profissão de zootecnista hoje?

Henrique Luís Tavares: A Zootecnia congrega o conjunto de atividades e habilidades destinadas a desenvolver, promover e controlar a produção e a produtividade dos animais domésticos e silvestres, bem como a tecnologia dos produtos de origem animal. O zootecnista é o profissional de nível superior capaz de gerar e aplicar conhecimento científico na criação racional de animais, usando a sua máxima produtividade, contribuindo para melhoria da qualidade de vida do homem sempre respeitando a natureza. Infelizmente ainda há muita falta de conhecimento da sociedade e do governo sobre as competências e atribuições do profissional zootecnista. Por isso, é importante que os profissionais sejam mais unidos e pró-ativos, devendo trabalhar como agentes políticos, econômicos e sociais, propagando pela elevação, progresso e aprimoramento continuo da Zootecnia no País, utilizando dos meios de comunicação disponíveis para divulgar ou difundir informações que, no âmbito de nossas atividades profissionais, sejam de interesse da sociedade.

AgriPoint: Em relação ao campo de trabalho, quais as oportunidades devem surgir nos próximos anos para o zootecnista?

Henrique Luís Tavares: Hoje o mercado de trabalho do zootecnista é promissor. O meio rural brasileiro vem sofrendo um processo de modernização que tem levado as empresas agropecuárias a buscarem mecanismos que as tornem mais competitivas no mercado. A elaboração, orientação, execução e gerenciamento de projetos agropecuários adequados às diferentes situações, de forma a aumentar a eficiência na produção animal e na comercialização de produtos, é um campo de trabalho crescente na Zootecnia.
Além da orientação técnica e serviços de extensão rural a produtores e empresas agropecuárias, o zootecnista atua no desenvolvimento de pesquisas, tanto em órgãos governamentais quanto na iniciativa privada. Outro mercado favorável é encontrado nas fábricas de rações e suplementos, indústrias da carne e do leite, cooperativas, associações de criadores e empresas ligadas à inseminação artificial e transferência de embriões. Trabalha, ainda, na direção de instituições de ensino e na regência de disciplinas ligadas à produção animal, em universidades e no Ciclo Médio.
Nos últimos anos a preocupação ecológica da sociedade mundial e de alguns governos em relação à demanda por uma maior qualidade ambiental tem levado empresas e órgãos a contratarem zootecnistas para responder tecnicamente por essas exigências, estabelecendo padrões de produção, condizentes com a proposta de sustentabilidade. A exploração de animais silvestres nativos e exóticos no Brasil também é atribuição dos zootecnistas, profissionais capacitados tecnicamente a atuar na criação comercial e conservacionista da fauna, dentro da legislação vigente e de princípios éticos da criação, preservação e bem-estar animal. Nessa área de animais silvestres e gestão ambiental, o zootecnista tem encontrado colocação trabalhando em zoológicos (nutrição, manejo, instalações, etc.), reservas ecológicas (ecoturismo, projetos de preservação ambiental, dentre outras) e na produção de animais silvestres (jacarés, capivaras, queixadas, perdizes, tartarugas e outros) ou exóticos (javalis, avestruzes, etc.).
O zootecnista tem ampla consciência de seu papel no desenvolvimento sustentável, não só sob o aspecto produtivo e ambiental, mas também pelo ponto de vista econômico e social, e prima pela responsável atuação na mitigação das diferenças sociais.

AgriPoint: O que o CRMV-SP tem feito para alinhar a formação do profissional e as necessidades do mercado?

Henrique Luís Tavares: Somos no Estado de São Paulo mais de três mil zootecnistas inscritos no Conselho, tendo 12 instituições de ensino superior de Zootecnia. Possuímos no Estado várias instituições de pesquisa da área de Zootecnia e um importante contingente de mão-de-obra qualificada. A atual gestão do CRMV-SP tem demonstrado uma administração participativa e de compromisso com a Zootecnia, por apoiar às metas e as ações propostas em prol dos zootecnistas pelas comissões técnicas, dando credibilidade e igualdade nestas ações, onde podemos destacar:

* O planejamento, avaliação, análise, orientação, assessoramento, reformulação e encaminhamento para execução de todos os assuntos técnicos envolvendo a Zootecnia no Estado, o interesse da classe e os demais assuntos relacionados à Zootecnia;
* Deliberação eficiente sobre as questões oriundas do exercício das atividades afins da Zootecnia;
* Campanha de valorização profissional;
* Representatividade igualitária dentro das comissões que tratam de assuntos pertinentes à Zootecnia;
* Participação das comissões de Zootecnia na elaboração da Resolução e do Manual de Responsabilidade Técnica, para a formulação de propostas para o aperfeiçoamento nos campos de atuação dos Responsáveis Técnicos Zootecnistas, atualizando os procedimentos e as normas técnicas do Manual que devem ser cumpridos no Estado. Revisão das normas legais para não conflitar com os aspectos científicos, técnicos e profissionais que constitui a profissão do zootecnista;
* Criação da Comissão de Ensino da Zootecnia de São Paulo, uma vez que o Estado possui o maior número de entidades de ensino de Zootecnia do País. Essa comissão é composta por membros representativos do meio acadêmico com a missão de fiscalizar e orientar as ações, diretrizes e bases de ensino nas 12 universidades que possuem o curso de zootecnia, além de acompanhar a abertura de novos cursos e fazer a avaliação curricular sempre zelando pela qualidade dos cursos de graduação de Zootecnia de São Paulo.

AgriPoint: O que mudou na formação do zootecnista nesses mais de 40 anos desde a criação do primeiro curso no Brasil?

Henrique Luís Tavares: A temática contemporânea e as novas demandas impuseram à Zootecnia outras dimensões do trabalho. Até a década de 1980, a antiga denominação de grade curricular do ensino de Zootecnia era composta de 40% de disciplinas do ciclo básico e 60% de disciplinas entendidas como profissionalizantes.
As Novas Diretrizes Curriculares dos Cursos de Graduação em Zootecnia mudaram essa concepção (resolução CNE/MEC nº 04 de 02 de fevereiro de 2006), pois ela conta com uma matriz curricular moderna e ajustada às necessidades do mercado, de forma a instrumentalizar e desenvolver habilidades profissionais relacionadas à promoção e ao controle da produção e da produtividade dos animais úteis ao homem, seja com fins alimentares ou de preservação, lazer e companhia. Também visa ao aprimoramento e à aplicação de tecnologias no desenvolvimento de produtos de origem animal, à sustentabilidade do meio ambiente, e, de forma privilegiada, à intervenção nas cadeias produtivas animais, contribuindo para uma maior eficiência do agronegócio. A Resolução 04/2006 promove maior significado dos conteúdos programáticos estratégicos tendo em vista os novos perfis, atitudes, habilidades e competências desejáveis ao zootecnista.
Hoje, deseja-se um profissional de atuação na mais ampla acepção de Zootecnia como ciência independente e de vanguarda. O projeto pedagógico do curso deve observar tanto o aspecto do progresso social quanto da competência científica e tecnológica que permitirá ao profissional a atuação crítica e criativa na identificação, tomada de decisão e resolução de problemas, considerando seus aspectos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais, com visão ética e humanística, em atendimento às demandas da sociedade.
A evolução técnico-científica na área de abrangência da Zootecnia e a abertura de novos mercados, tanto nacionais quanto internacionais, proporcionam um crescente interesse pela formação e absorção desses profissionais no mundo do trabalho. Até o início do ano 2000, o Brasil contava 35 cursos superiores de Zootecnia. Hoje são mais de cem, distribuídos em faculdades e universidades de todas as regiões do País.

AgriPoint: O que o CRMV-SP tem feito e pretende fazer nos próximos anos para melhorar a formação e o trabalho do zootecnista?

Henrique Luís Tavares: Propor e apoiar as alterações das leis que se tornarem necessárias, principalmente as que visem a melhorar a regulamentação do exercício da profissão do zootecnista; sensibilizar os setores que trabalham com a Zootecnia e autoridades públicas para a necessidade de aumento de recursos humanos para o desenvolvimento desse tipo de trabalho e abertura de novos concursos públicos; aprofundar a visibilidade e a consequente inserção do zootecnista nas políticas públicas, de maneira a possibilitar que esse profissional de alto valor para o desenvolvimento do país possa se integrar mais profusamente na estrutura funcional de órgãos públicos e privados voltados para o agronegócio ou preservação das espécies.
As ações em prol da Zootecnia, no que diz respeito à melhoria da formação e do trabalho profissional, têm que ter a participação efetiva de todos os zootecnistas e futuros profissionais. Temos o dever de valorizarmos nossa classe preservando os princípios e ética da profissão. A profissão da Zootecnia está descaracterizada e precisamos nos fortalecer perante a sociedade que tanto necessita de nossos conhecimentos.

Fonte: BeefPoint (acessado em 14/05/10)

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