Em laboratórios, campos experimentais e parques urbanos, jovens mulheres estão redesenhando o papel da Medicina Veterinária e da Zootecnia no Brasil. Atuando em instituições de referência, essas pesquisadoras lideram estudos que conectam saúde animal, conservação ambiental, produção sustentável e saúde pública, e mostram, na prática, como a presença feminina amplia perspectivas e acelera soluções para desafios complexos.
Ao investigar a saúde de toninhas (golfinhos pequenos) ameaçadas de extinção, a mestranda Barbara Sophia Codeas, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), explica que a diversidade de gênero não é apenas simbólica, mas estruturante da ciência que produz.
Para Barbara, a presença feminina “amplia perspectivas, incorpora diferentes abordagens e promove representatividade”, algo que se materializa em ambientes de pesquisa colaborativos e interdisciplinares. Em seu trabalho com patologia de cetáceos vítimas da captura incidental, o refinamento diagnóstico permite compreender que a saúde desses animais reflete a saúde do ecossistema marinho como um todo, indicando que conservação e ciência caminham juntas.
Essa visão integrada também orienta os estudos de Marina Pellegrino da Silva, doutoranda da FMVZ-USP, que investiga a sarna sarcóptica em canídeos silvestres brasileiros. “O fortalecimento da presença feminina tem criado espaços mais seguros para o diálogo científico, favorecendo trocas e decisões coletivas”, diz. Ao destacar que boas práticas de bem-estar animal e preservação ambiental são pré-condições para a produtividade, a pesquisadora aponta que a ciência fornece o método necessário para criar, testar e validar soluções que impactam tanto a conservação quanto a saúde pública, já que a enfermidade estudada é uma zoonose.
Segurança dos alimentos e da saúde pública
No Instituto Biológico de São Paulo, Letícia Iorio Lamim atua na investigação do papilomavírus bovino associado a abortamentos, tema sensível para a produção animal e para a segurança dos alimentos. “A diversidade de gênero amplia as formas de interpretar problemas complexos, fortalecendo diagnósticos e estratégias de controle”, afirma a mestranda. Ao analisar tecidos fetais por técnicas moleculares, sua pesquisa revela que compreender a patogenia de agentes infecciosos é essencial para reduzir prejuízos econômicos e, ao mesmo tempo, garantir sistemas produtivos mais responsáveis.
Já na interface entre pesquisa aplicada e inovação, Alessandra Figueiredo de Castro Nassar, diretora da Divisão de Pesquisa em Sanidade Animal do Instituto Biológico, aponta que a liderança feminina deixou de ser exceção para se tornar realidade institucional.
Segundo a pesquisadora, as mulheres representam hoje cerca de 80% do quadro de pesquisadores do Instituto, um cenário que fortalece abordagens integradas entre produtividade, bem-estar animal e preservação ambiental. À frente de estudos voltados ao diagnóstico de agentes bacterianos e à construção de parcerias com o setor privado, Alessandra avalia que o avanço tecnológico na área sanitária demonstra que a inovação científica “reflete diretamente em benefícios para a sociedade”, ao modernizar cadeias produtivas e contribuir para a proteção da saúde coletiva.
Na área da “Uma Só Saúde”, Fabiana Andrea Messias Silva investiga o conhecimento da população sobre a Febre Maculosa Brasileira. Sua pesquisa revelou que, mesmo entre pessoas que acreditam dominar o tema, há uma discrepância significativa entre o saber percebido e o conhecimento real, demonstrando uma falha grave na informação técnica. “Transformar ciência em educação acessível é decisivo para alterar cenários epidemiológicos, mostrando que inovação também passa pela comunicação científica e pela aproximação com a sociedade”, reforça a pesquisadora da Universidade Santo Amaro (Unisa).
Horizontes amplificados
Para a Organização das Nações Unidas (ONU Mulheres), dar visibilidade a jovens pesquisadoras é uma estratégia central para enfrentar desigualdades históricas na ciência. Na avaliação da representante da entidade no Brasil, Gallianne Palayret, iniciativas desse tipo ajudam a romper estereótipos e barreiras estruturais, mostrando que reconhecer trajetórias femininas fortalece referências positivas e ambientes mais inclusivos.
Ao destacar médicas-veterinárias e zootecnistas, a ONU Mulheres reforça que ampliar a presença feminina nessas áreas é condição para aproveitar todo o potencial do conhecimento científico e tecnológico, especialmente em temas ligados à saúde animal, sistemas alimentares e desenvolvimento sustentável.
Agenda indissociável
Os trabalhos conduzidos por essas pesquisadoras convergem em um ponto central: não é mais possível pensar produtividade sem bem-estar animal e preservação ambiental. Seja ao analisar cetáceos como sentinelas do oceano, mapear zoonoses em fauna silvestre, investigar perdas reprodutivas na pecuária ou avaliar a percepção da população sobre doenças transmitidas por vetores, a ciência liderada por mulheres evidencia que soluções duradouras exigem integração de saberes.
Ao conectar laboratório, campo e sociedade, essas jovens cientistas mostram que inovação e sustentabilidade não são agendas paralelas, mas faces de um mesmo compromisso com o futuro.