O recente registro de dois casos de infecção humana pelo vírus Nipah (NiV) no estado de Bengala Ocidental, na Índia, em janeiro de 2026, levou autoridades sanitárias internacionais a reforçarem o monitoramento da doença. Embora o vírus seja reconhecido pela alta letalidade, que pode variar entre 40% e 75%, o Ministério da Saúde avalia que o risco atual para o Brasil é baixo. A Prefeitura de São Paulo publicou informe técnico com atualização epidemiológica e orientações à rede de saúde, visto que a cidade receberá muitos turistas durante o Carnaval.
De acordo com o National Centre for Disease Control (NCDC), da Índia, os dois casos confirmados ocorreram entre profissionais de saúde com vínculo epidemiológico no mesmo serviço assistencial. Ao todo, 196 contatos foram identificados e seguem em monitoramento, sem registro de transmissão comunitária sustentada até o momento.
A Secretaria Municipal da Saúde (SMS), por meio da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa), informa que, conforme avaliação do Ministério da Saúde, o risco atual do vírus Nipah para o Brasil é considerado baixo. A pasta destaca em nota que “o monitoramento da situação é contínuo, mantendo protocolos de vigilância e alinhamento às recomendações nacionais e internacionais”, acrescentando que, no momento, não há registro de notificações suspeitas na capital paulista.
O vírus Nipah é uma zoonose emergente identificada pela primeira vez em 1998–1999, durante surto na Malásia e em Singapura, associado à criação de suínos. Desde então, casos vêm sendo registrados principalmente em Bangladesh e na Índia, muitas vezes relacionados ao contato com morcegos frugívoros do gênero Pteropus, reservatórios naturais do vírus, ou ao consumo de alimentos contaminados, como seiva de tamareira.
Transmissão e sintomas
A transmissão pode ocorrer por contato direto com animais infectados, ingestão de alimentos contaminados ou de pessoa para pessoa, especialmente em ambientes hospitalares. O período de incubação varia, em geral, de 4 a 14 dias, podendo chegar a 45 dias em situações raras.
Os sintomas iniciais incluem febre, dor de cabeça, mialgia, vômitos e sintomas respiratórios. Em casos graves, a infecção pode evoluir para encefalite aguda, com confusão mental, convulsões e rebaixamento do nível de consciência, além de insuficiência respiratória. Não há vacina ou antiviral específico disponível; o tratamento é de suporte intensivo.
Segundo o informe técnico da Prefeitura de São Paulo, até hoje apenas um episódio de disseminação internacional foi documentado, da Malásia para Singapura, em 1999, por meio do transporte de suínos infectados. Desde então, os surtos permaneceram restritos aos países afetados, sem comportamento pandêmico.
“Uma Só Saúde” como estratégia para prevenir novas emergências
Para especialistas, compreender o vírus Nipah exige uma abordagem que vá além da saúde humana. A presidente da Comissão Técnica de Uma Só Saúde, Vera Letticie de Azevedo Ruiz, afirma que “o conceito de Uma Só Saúde é fundamental para a compreensão e o enfrentamento de infecções emergentes como o vírus Nipah, cuja dinâmica envolve a interação entre reservatórios silvestres, espécies amplificadoras, seres humanos e alterações ambientais”. A médica-veterinária ressalta que a emergência do vírus está associada a fatores como desmatamento, fragmentação de habitats e intensificação agropecuária.
Ela destaca, ainda, que embora o Brasil não registre a presença dos morcegos do gênero Pteropus, principais reservatórios do vírus na Ásia e Oceania, é necessário analisar os determinantes ecológicos antes de avaliar riscos. “É fundamental compreender a cadeia de transmissão e os fatores ambientais envolvidos para ponderar o risco nas condições brasileiras”, afirma.
Letticie reforça que o conceito de “Uma Só Saúde” integra saúde humana, animal e ambiental, permitindo respostas mais eficazes diante de zoonoses de alto impacto.
Vigilância integrada e orientação à rede de saúde
Apesar do baixo risco atual, autoridades recomendam manter sistemas de vigilância atentos. Letticie defende que “a divulgação de informações baseadas em evidências científicas, evitando alarmismo e promovendo uma cultura de prevenção, é uma das principais ferramentas”, além do fortalecimento da vigilância integrada.
Entre as medidas prioritárias, ela cita monitoramento sanitário de fauna silvestre e animais domésticos, sensibilização dos serviços de saúde para identificação precoce de síndromes neurológicas e respiratórias graves de causa desconhecida, integração de redes laboratoriais humanas e veterinárias, e atenção especial a áreas com intensa interface humano-animal-ambiente, como regiões de desmatamento e expansão agropecuária.
No informe técnico, a Prefeitura de São Paulo orienta que, diante de paciente com histórico de viagem à área com surto confirmado e quadro de febre aguda associada a alteração do estado mental, dor de cabeça ou falta de ar, o caso seja discutido imediatamente com o Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (Cievs).
Enquanto o cenário internacional segue sob monitoramento, especialistas reiteram que informação qualificada, vigilância sensível e integração entre setores são as principais ferramentas para enfrentar ameaças emergentes como o vírus Nipah.