Febre amarela reacende alerta no interior paulista e reforça papel dos primatas na vigilância da doença

Casos confirmados nas regiões de Taubaté e Sorocaba colocam vacinação, ciência e monitoramento de macacos no centro das estratégias de prevenção no estado de São Paulo
Texto: Comunicação CRMV-SP; Foto: Magnific

A circulação do vírus da febre amarela voltou a acender o alerta das autoridades sanitárias no estado de São Paulo após a confirmação de novos casos humanos em municípios do interior paulista, especialmente nas regiões de Taubaté e Sorocaba. Dados do Boletim Epidemiológico da Secretaria de Estado da Saúde, divulgados em abril de 2026, apontam sete casos autóctones registrados no atual período de monitoramento, iniciado em julho de 2025, além de três mortes confirmadas. Todos os pacientes infectados não haviam sido vacinados contra a doença.

Até abril de 2026, os casos foram identificados nos municípios de Cruzeiro (2), Lagoinha (3), Araçariguama (1) e Cunha (1), abrangendo áreas dos Grupos de Vigilância Epidemiológica (GVE) de Taubaté e Sorocaba. O levantamento estadual mostra que a mediana de idade dos pacientes foi de 52 anos, com predominância da faixa etária entre 50 e 59 anos, responsável por 57% das ocorrências. Entre os infectados, seis eram homens, o equivalente a 85,7% dos casos. Dos sete pacientes diagnosticados, três morreram em decorrência da doença.

O avanço dos registros reforça a importância da vigilância epidemiológica e do monitoramento de primatas não humanos, considerados fundamentais para a detecção precoce da circulação viral. “Os primatas não humanos são os principais hospedeiros do vírus da febre amarela no ciclo silvestre e desempenham papel essencial como sentinelas da doença”, afirma a coordenadora técnica do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP), Carla Carvalho. Segundo ela, esses animais funcionam como um sistema de alerta natural, permitindo a adoção antecipada de medidas preventivas antes da ocorrência de surtos em humanos.

De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, a identificação de macacos infectados indica a circulação do vírus antes do surgimento de casos na população humana. Esse monitoramento possibilita intensificar campanhas de vacinação e reforçar ações de vigilância em áreas consideradas de risco.

Vacinação: principal forma de prevenção

A febre amarela é uma doença infecciosa viral transmitida por mosquitos. No ciclo silvestre, a transmissão ocorre principalmente por espécies dos gêneros Haemagogus e Sabethes, comuns em áreas de mata. A infecção em humanos acontece quando pessoas não vacinadas entram nesses ambientes e são picadas por mosquitos contaminados pelo vírus. Os sintomas mais frequentes incluem febre alta, dores no corpo, náuseas, fadiga e mal-estar. Em casos graves, a doença pode provocar insuficiência hepática, hemorragias e levar à morte.

A vacinação segue como a principal forma de prevenção e controle da doença. Dados da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo indicam que, dos 66 casos humanos registrados no período de monitoramento 2024/2025, 93,9% ocorreram em pessoas não vacinadas. Mais da metade dos pacientes evoluiu para óbito. As autoridades sanitárias recomendam que pessoas que vivem, trabalham ou frequentam áreas de mata estejam imunizadas pelo menos dez dias antes da exposição ao risco.

Primatas ajudam a antecipar surtos

O boletim epidemiológico da Secretaria de Estado da Saúde aponta que a identificação de epizootias (mortes ou adoecimentos de primatas não humanos por febre amarela) já indicava a circulação ativa do vírus na região de Campinas desde setembro de 2024, meses antes da confirmação dos primeiros casos humanos, registrados em dezembro do mesmo ano. No período de monitoramento 2024/2025, foram confirmados 82 primatas infectados em diferentes regiões do Estado.

Para a coordenadora técnica do CRMV-SP, Carla Carvalho, o monitoramento desses animais é fundamental para prevenir casos e mortes em humanos. “Algumas espécies de primatas são altamente sensíveis à febre amarela e podem adoecer ou morrer rapidamente após a infecção”, afirma. Segundo a especialista, o registro de animais doentes ou mortos permite que as autoridades de saúde adotem medidas preventivas e intensifiquem a vacinação em áreas de risco antes da disseminação da doença entre a população.

Carla Carvalho ressalta, ainda, que as diferentes espécies de primatas apresentam níveis distintos de sensibilidade ao vírus. “Há espécies mais vulneráveis, com alta taxa de letalidade, como bugios, guaribas, saguis e micos. Já os macacos-prego tendem a apresentar maior resistência, o que também influencia a dinâmica de circulação do vírus no ambiente”, explica.

Entre os sinais que podem indicar infecção estão apatia, dificuldade de locomoção e alimentação, falta de coordenação motora, prostração e morte súbita. Nesses casos, a orientação é não tocar no animal e comunicar imediatamente os órgãos de saúde.

Além das notificações feitas por secretarias municipais e estaduais, o monitoramento da doença conta com o apoio do Sistema de Informação em Saúde Silvestre (SISS-Geo), plataforma do governo federal que permite registrar animais silvestres vivos, doentes ou mortos. O sistema pode ser utilizado por qualquer cidadão e auxilia as autoridades na detecção precoce da circulação do vírus, no mapeamento de áreas de risco e no planejamento de ações de prevenção e controle epidemiológico. Acesse aqui. https://crmvsp.gov.br/siss-geo-fortalece-vigilancia-de-zoonoses-e-conservacao-da-biodiversidade-no-brasil/.

Desinformação compromete saúde pública

Apesar da importância dos primatas no controle epidemiológico da febre amarela, ainda são registrados casos de agressões e mortes de macacos motivados pela desinformação. Para Carla Carvalho, esse tipo de prática representa um risco direto à saúde pública. “Eliminar primatas não impede a transmissão da febre amarela”, afirma a coordenadora técnica do CRMV-SP, ao destacar que esses animais também são vítimas do vírus e não transmitem a doença diretamente aos seres humanos.

Segundo ela, a transmissão ocorre exclusivamente pela picada de mosquitos infectados. “Os humanos se tornam suscetíveis quando frequentam áreas silvestres e são picados por mosquitos contaminados”, explica. Carla ressalta que a redução das populações de primatas compromete um importante sistema natural de vigilância sanitária. “A morte desses animais dificulta a identificação precoce de áreas de risco e pode atrasar a adoção de medidas de controle”, observa.

A médica-veterinária também alerta para os impactos ambientais causados pela eliminação desses animais. “O desaparecimento dos primatas pode provocar desequilíbrios ecológicos e favorecer novos surtos, já que os mosquitos transmissores podem buscar outras fontes de alimentação, incluindo os seres humanos”, afirma.

O boletim da Secretaria de Estado da Saúde reforça a necessidade de ampliar ações educativas junto à população. O documento destaca que “é fundamental promover ações de conscientização sobre a febre amarela, suas formas de prevenção e sintomas”, além de fortalecer as campanhas de vacinação e estimular a notificação de casos suspeitos em humanos e primatas.

Diante da circulação ativa do vírus no interior paulista, as autoridades de saúde reforçam que a combinação entre vigilância epidemiológica, participação da população, monitoramento de primatas não humanos e ampliação da cobertura vacinal continua sendo a principal estratégia para conter o avanço da febre amarela no estado e evitar novas mortes.

Relacionadas

Black microphone in conference room
IMG_0878
Divulgação COSEMS-SP
cute-pug-sitting-with-scarf

Mais Lidas

Diagnóstico por imagem é uma das especialidades reconhecidas pelo CFMV
Crédito: Acervo CRMV-SP
Notebook com a tela inicial da Solução Integrada de Gestão do CRMV-SP (SIG CRMV-SP)
Responsável técnico é a figura central que responde ética, legal e tecnicamente pelos atos profissionais da empresa
Crédito: Freepik
Em São Paulo, a primeira instituição destinada ao ensino da Veterinária teve origem no Instituto de Veterinária, nas dependências do Instituto Butantan, no ano de 1919 Crédito da foto: Acervo Histórico/FMVZ-USP

Contato

(11) 5908 4799

Sede CRMV-SP 

Endereço: Rua Apeninos, 1.088 – Paraíso – CEP: 04104-021
Cidade: São Paulo

Newsletter

Todos os direitos reservados ao Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo – CNPJ: 50.052.885/0011-12

DPO do CRMV-SP: Zanandrea Freitas – zanandrea.dpo@crmvsp.gov.br